30/04/2020

A culpa



Esta pandemia é uma calamidade. Perante a desgraça as pessoas têm basicamente duas reacções: os religiosos acreditam na Justiça Divina, ou seja, acreditam num Deus que nos castiga pelos pecados cometidos. E todos pecamos, certo? Por isso, a culpa é de todos. Os outros não são religiosos e acham que isto é apenas a Natureza a seguir o seu curso. A Natureza não é cruel, nem consciente, é apenas indiferente. Afinal de contas o Universo surgiu espontaneamente do nada!?... Só os mais fortes, ou melhor, para ser mais correcto e de acordo com a teoria da evolução, só os mais adaptados sobrevivem. Porém, esta visão tem um pequeno problema, cria um vazio tremendo, Não ter ninguém, nem nada para culpar parece não ser muito natural para o ser humano, é um verdadeiro tédio. É como se estivéssemos a falar com uma pessoa com a postura de cangalheiro e o humor de um defunto. Não tem piada nenhuma. O ser humano precisa de um culpado, nem que tenha de se culpar a si próprio.
E no fim, será como sempre foi, acusar-nos-emos uns aos outros.

26/04/2020

Solilóquio


Tu não vais querer ser uma abelha escrava de uma colmeia, por mais doce que o mel te saiba. Tu não vais querer ser uma formiga guerreira, muito menos rainha, só pela ilusão do poder que sentes. Tu não vais querer ser um peixe colorido dentro de um aquário, mesmo que os outros te digam quão belo és e seguro estás. Tu não vais querer ser um garanhão numa manada, por mais admirado que sejas. Não preferes ser antes uma andorinha frágil que chega com a primavera? Ou uma partícula de luz que viaja como uma onda no Universo? 

24/04/2020

Estado Novo


Frequentei a escola primária durante o Estado Novo. Uma escola pública que tinha sido recentemente construída, no bairro social onde vivia. A escola estava cortada ao meio. Um muro separava os meninos das meninas. Um muro  que na altura me parecia tão alto como aqueles que vi depois em Jerusalém a separar judeus de muçulmanos.
A minha sala de  aula tinha do lado esquerdo as janelas por onde entrava a luz. Do lado direito a parede com os desenhos dos pirralhos afixados e, o acesso para porta que dava para o recreio. Nas costas dos alunos a parede com os mapas de Portugal Continental, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, assinalados com os respectivos nomes de rios e caminhos-de-ferro. Informação que deveríamos saber de fio a pavio. Em frente, colocada sobe um estrado – para ganhar altura –, estava a secretária da professora. Por detrás da professora o quadro de ardósia. Em cima do quadro, olhando da esquerda para direita, a controlar, encontravam-se as fotografias de Salazar, Cardeal Cerejeira e de Américo Tomás. Bem acima desta Trindade, no centro da parede, destacava-se um grande crucifixo. Numa mesa de apoio à professora, como prolongamento da autoridade e omnipresença das personalidades, os instrumentos de tortura: uma palmatória com furos e uma coroa de orelhas de burro, feita de cartão canelado pintado de vermelho. O  meu Tarrafal de infância – com as devidas distâncias –. O uso da palmatória na minha mão, como castigo pelos erros ortográficos cometidos nos ditados, eu suportava estoicamente. Mesmo dando um erro por cada palavra ditada. Mas não conseguia tolerar a humilhação de ficar num canto da sala coroado de burro. A professora – de quem até gostava – não levava em conta a minha dislexia ou contexto familiar. Era assim porque Deus ditava que era assim. Nunca mais recuperei totalmente a minha auto-estima. O trauma ficou como uma tatuagem quase invisível, embora marcada para sempre na minha memória e no meu ser. E foi assim durante quase quatro anos, até ao dia 25 de Abril de 1974.
Nesse dia não fui à escola. Voltei a ter aulas uns dias depois. Não me lembro exactamente quantos. Mas foi um dia de alegria. Para meu espanto, milagrosamente, as fotografias, os mapas das colónias e coroa, tinham desaparecido. Restava o crucifixo e a palmatória.
E como num filme: um sinal de esperança. Tal como uma flor num cano de uma espingarda, ergue-se um cravo vermelho, pujante, espetado num dos furos da palmatória. Talvez estivesse a escarnecer as orelhas de burro atiradas para o caixote de lixo.

Afinal, a revolução, sempre tinha valido a pena. Viva o 25 de Abril!

23/04/2020

Toda a verdade


Existem por aí muitas teorias sobre esta Pandemia, a oficial e as teorias da conspiração. A que prefiro é aquela que afirma que a terra é plana. É por isso que o vírus não escorrega tão facilmente para o hemisfério sul. Mas não sei… Sou apenas um pobre ignorante. O que eu sei é que me mantenho confinado há mais de quarenta dias e não sei como vou pagar a renda da casa referente ao mês que vem. Essa é a verdade!
Entretanto, acabei de saber de mais uma teoria que faz todo o sentido. E que é a seguinte: daqui a mais ou menos dois anos as Nações Unidas, juntamente com a NASA, irão anunciar a invasão do planeta Terra por uma civilização alienígena muito hostil. Eles vêm aí para nos comerem a todos. - Agora percebem porque nos estão a engordar? Mas adiante.
Não tenham medo, andrà tutto bene! Para os mais distraídos e ansiosos isto quer dizer: «vai ficar tudo bem.»
Os governantes de todo o mundo decidirão que nos devemos esconder novamente em casa. Desta vez, teremos de ser ainda mais fortes, solidários e obedientes. Não haverá cantigas à janela, nem passeios higiénicos, muito menos levar o cão à rua. Teremos que ficar em casa com as persianas e os cortinados fechados, de luz apagada a sussurrar os pensamentos. Poderemos ligar a televisão, com o som no mínimo, para ver e ouvir os senhores dos telejornais com aquelas vozes paternalistas que nos dirão tudo o que devemos fazer. Extraordinariamente pedagógico. Depois teremos os especialistas em extraterrestres do canal História, que já sabem disto há muito tempo, para nos explicar tudo muito detalhadamente, nomeadamente o facto de não podermos usar a Internet, nem facebook, porque é assim que Eles nos detectam. Veremos, por todas as cidades do mundo, imagens horríveis de extraterrestres, com as suas máquinas assassinas de raios carbonizantes a comerem seres humanos. Os Marcianos, como serão chamados, não farão descriminação entre ricos e pobres. Todavia, irão preferir começar pelos americanos que são mais gordinhos. - É que eles comem muitos hambugueres e cachorros-quentes -. Desta vez os velhinhos não vão ser os preferidos, serão deixados para o fim para serem transformados em farinha para alimentar os animais alienígenas. 
E agora perguntam vocês: «Como poderemos ir ao supermercado? E a economia? E o papel higiénico?» Por favor!... Não sejam mainstream. É necessário olhar para isto com algum distanciamento pós-moderno. Neste caso os pormenores não têm a menor importância para a conclusão da narrativa.
Mas não se aflijam, porque já existe um plano mundial, há muito tempo delineado. Os senhores do mundo, como Bill Gates e o Elon Musk ou lá o que é, entre outros, irão salvar-nos. Por esta altura já estaremos todos vacinados contra o COVID-19. O vírus será depois relançado por todo o mundo, matando extraterrestres que nem tordos. Se este plano não for totalmente eficaz, será aumentado o pitch da tecnologia 5G que acabará por fritar os pulmões dos extraterrestres ou qualquer outra coisa que eles tenham de parecido.
A humanidade será salva e sairemos para a rua a festejar que nem no 25 de Abril de 1974.
Acabo fazendo a referência à fonte desta informação. Eu não brinco. Mas digo-vos, não foi fácil encontrar, porque todos os artigos e vídeos já tinham sido apagados do You Tube e do Facebook. Só o consegui através de um link de um canal alternativo. Trata-se de um tal Dr. PHD., que dá pelo nome de H.G. Wells e que escreveu um livro científico, cujo título é «A Guerra dos Mundos» Aconselho!

20/04/2020

Viva o 25 de Abril, sempre!

Foto Jaime Bulhosa

Vou celebrar o 25 de Abril, isso é ponto assente e sem negociação. Provavelmente vou festeja-lo à janela cantando a Grândola, já que não posso descer a Avenida.
Era um miúdo em 1974 e vivi o 25 de Abril sob a luz dos olhos de uma criança de 10 anos. Pensei nessa madrugada, pela aflição demonstrada pelos meus pais, de que se tratava de uma guerra. Mas não era. Mal sabia eu que vinha a caminho a revolução mais bonita e florida que um povo pode viver. Hoje, e porque vivemos um momento sem liberdade, é urgente relembrar o seu significado: o alívio de um soldado e dos seus pais ao saber do fim da guerra. A alegria de um preso político ao sair da cadeia. A vitória de um exilado ao poder voltar ao seu país. A liberdade de expressarmos a nossa opinião. A excitação de decidirmos através do voto a aplicação da democracia. A justiça de nunca mais uma mulher ser acusada de adultério e ser tratada como uma criminosa. O direito a sermos tratados e cuidados num sistema nacional de saúde. O aumento da possibilidade de uma mulher ter educação e acesso ao ensino superior. A definição de um salário mínimo. A possibilidade de gozarmos férias. A garantia de podermos defender os nossos direitos através da greve. A igualdade de oportunidades na escolha de profissão e acesso ao emprego sem descriminação de idade, sexo, raça, etc. A livre expressão artística e o fim da venda de livros por debaixo do balcão. O direito à autodeterminação dos povos colonizados. E tantas, tantas outras conquistas, dadas como adquiridas e que se podem esfumar num abrir e fechar de olhos se não nos mantivermos vigilantes.

Viva o 25 de Abril, sempre! 

19/04/2020

Chegar a Deus


Durante esta longa quarentena resolvi voltar à religião católica imposta na minha infância. Rezei o terço de joelhos, junto a cabeceira de minha cama, durante dias. Pedi a Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora e ao Espírito Santo para que mudasse o Mundo.
E o Mundo não mudou!
Como dizia o outro:”Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não ter morrido num sofá.”
Decidi então fazer jejum, em nome de Alá, e rezei cinco vezes por dia virado para Meca.
E o Mundo não mudou!
Calcei um par de luvas e coloquei uma máscara na cara. Bati à porta do vizinho como testemunha de Jeová. Fechou-me a porta na cara.
E o Mundo não mudou!
Fiz sexo sem falta à sexta-feira, como é dever obrigatório no Judaísmo Hassídico. Aprendi a rezar em IÍdiche.
E o Mundo não mudou!
Meditei segundo as regras de bhavana, buscando a iluminação em Buda.
E o Mundo não Mudou!
Procurei no bramanismo, de acordo com a casta a que pertenço, a Alma Universal.
E o Mundo não Mudou!
Evoquei os poderes dos animais e da natureza mágica xamanica. Viajei ao som dos tambores e vi os meus antepassados.
E o Mundo não mudou!
Em desespero depositei toda a minha fé na ciência, li milhares de artigos científicos e acreditei no Ateísmo.
E o Mundo não mudou!
É uma pena termos que passar pela fé para chegarmos a Deus! 

10/04/2020

O Vento


Num relógio sem corda procuro acelerar o tempo. Ao recordar o passado pretendo resgatar o futuro. Na melancolia encontro o júbilo. Na distância reencontro quem não posso abraçar. No tédio a motivação. No meio da entropia sinto a proporção divina. Em silêncio escrevo o que não consigo dizer. «Numa rede tento prender o vento.»

07/04/2020

Espelho Partido

Ilustração de Anton Semenov

Passados tantos dias de quarentena começa a ser difícil conviver. Não com outros, mas comigo. Benditos os outros! Já não aguento os meus pensamentos circulares. A minha voz ecoa dissonante nas quatro paredes da sala, como um violino desafinado. Estou a ficar cada vez mais calado. O que é uma bênção e outros agradecem. Também já sofro de TOC, isto é, transtorno obsessivo-compulsivo, não sei de que tipo, porque não sou psiquiatra, mas de algum tipo sofro de certeza. Pareço uma barata tonta deambulando de cá para lá e de lá para cá, só para gastar o tempo. Por tudo e por nada bato na madeira três vezes, faço figas, deito sal sobre o ombro esquerdo, evito gatos pretos e sussurro rezas estúpidas. Mas pior são os espelhos, não tolero espelhos partidos. Até vos conto uma história: o outro dia ao deitar o lixo fora, depois de abrir a tampa do contentor, vejo uma cara horrenda num quadro surrealista. A imagem era igual a de uma personagem saída de um conto de Edgar Allan Poe, Kafka ou  de H.G Wells.
Antes de me ter dado conta de que era eu próprio reflectido no espelho, pensei: “Não me admira que tenham deitado esta merda fora!”
Pronto já desabafei. Vocês que me lêem, vocês que me aturem!

04/04/2020

Homenagem a (S.)

Foto Jaime Bulhosa

A (S.) é uma mulher. Podia ser outra mulher qualquer, no outro lado do mundo, numa casa fechada. A (S.) não tem nome, porque muitas mulheres nem a um nome têm direito. A (S.) foi ensinada, como tantas outras mulheres a ter que tomar conta de tudo. Dizem que é assim, desde há milhares de gerações, tantas que a memória do quando e do porquê se perdeu. E em nenhum livro de história ficou registado, porque o trabalho doméstico de uma mulher não é História.
A (S.) levanta-se de manhã bem cedo e não tem tempo para pensar nela. Ainda assim consegue gastar uns minutos a colocar um pouco de eyeliner para estar bonita. Mesmo achando que já ninguém olha para ela. Recompõe-se, tem que se organizar. Apanhar tudo o que ficou espalhado pela casa no dia anterior. Acorda o marido, veste os filhos, prepara o almoço, enquanto pensa no que vai fazer para o jantar depois do teletrabalho. Deixa as panelas em lume brando para conseguir fazer as camas de lavado e varrer o chão. Depois coloca a roupa suja na máquina de lavar, pega na esfregona e apanha a água do chão que escorre do esgoto. Esgoto que continua entupido, apesar das promessas repetidas do marido em resolver o assunto. A (S.) precisa de pensar em tudo. Em tantas coisas ao mesmo tempo que se julga ignorante por já não ter vontade de ler ou de ver um pouco de televisão. Contudo, o marido vê as notícias por ela sentado no sofá. Diz-lhe que se tem que desinfestar tudo e mais alguma coisa. Existe um vírus que mata. Ela teme pelos seus e pelos outros. A (S.) continua a arrumar, a arrumar porque há sempre milhares de coisas que tem de saber onde estão. Para poder responder a quem grita:
- Mãe onde está isto? Oh (S.) onde puseste aquilo?
A (S.) já não se lembra onde arrumou o que lhe pedem, porque está exausta, meio zonza e triste porque ainda refilam. A (S.) não sabe quanto tempo isto vai demorar, talvez a vida toda.

Um dia a (S.) arrumar-se-á a ela própria e nunca mais ninguém a irá encontrar.