Neste “admirável” mundo novo
estou a sofrer de um mal estranho que me ataca de vez em quando, uma anestesia paralisante, uma espécie de hipnotismo. O estar
quase sem trabalho deixa-me apático, começo a encarar com a mesma indiferença morrer ou viver, ficar rico ou ficar pobre. Vagueio pela casa como se estivesse num planeta desconhecido. Nenhuma distinção
me seduz; fortuna ou infortúnio, vantagem ou desvantagem, alegria ou tristeza, é
tudo igual. E nestas condições não me ajudo a mim nem a ninguém. Depois acordo. E
não quero acreditar que o mundo mudou mesmo. No entanto, existe uma força qualquer nos outros que me movimenta. Obrigando-me a pensar que fui apenas eu que mudei e que basta voltar para mim, outra vez. Um ser humano que sente, luta, ama e que deseja dar a mão para que tudo fique bem.
27/03/2020
21/03/2020
Xamanismo
Tenho
cinquenta e seis anos e se esta merda não passar depressa preparo-me para abrir
falência pela terceira vez consecutiva. Está visto que sou um empresário de
sucesso. Também vos digo, ter uma empresa é uma seca do caralho! No entanto,
aprendi que devemos sempre olhar para o lado positivo da vida. Bem vistas a
coisas pode até ser bom. Os meus filhos já estão crescidos, não tenho casa própria,
o meu carro está cair de podre e os poucos tarecos que me sobram, com excepção de
alguns livros, não valem nada e a sensação de me livrar dos bens materiais é, para mim, cada vez mais libertadora.
A minha capacidade de previsão do futuro é extraordinária, como é bem
evidente. Por isso, já me estou a preparar para o que aí vem. Sempre quis ser
um caçador-recolector. Acho que me vou dedicar ao Xamanismo.
06/03/2020
É difícil de dizer!
Foto Jaime Bulhosa
Há seis meses que não escrevia no facebook.
Não sei se isso é bom ou se isso é mau!?...
“Um dia
um fazendeiro perdeu um dos seus cavalos que saltou a cerca e fugiu. Os seus
vizinhos que logo ficaram a saber do sucedido, disseram:
- Mas
que azar! Isso é péssimo!? Ao que o fazendeiro respondeu:
-
Talvez! Não sei se isso é bom ou se isso é mau. É difícil de dizer.
No dia
seguinte o cavalo que tinha fugido regressou com outros sete cavalos selvagens.
Imediatamente os vizinhos disseram:
- Meu Deus
que sorte!?
Mais
uma vez o fazendeiro respondeu:
- Talvez!
Não sei se isso é bom ou se isso é mau. É difícil de dizer.
No dia
seguinte o filho do fazendeiro tentou domesticar um dos cavalos selvagens, acabou por cair e partiu uma perna. Imediatamente apareceram os vizinhos que
disseram:
- Mas
que azar!
Ao que
o fazendeiro respondeu:
-
Talvez! Não sei se isso é bom ou se isso é mau. É difícil de dizer.
Passado
uns dias alguns militares visitaram a fazenda com o intuito de recrutar jovens
para uma guerra que se aproximava. No entanto, como o jovem filho do fazendeiro
tinha uma perna partida foi rejeitado. Mais uma vez os vizinhos apareceram e
disseram:
- Pelos
Céus! Como isso é maravilhoso!?
Ao que
o fazendeiro respondeu:
- Talvez!
Não sei se isso é bom ou se isso é mau. É difícil de dizer.”
Anónimo
Anónimo
18/09/2019
Mark Twain
foto Jaime Bulhosa
Gosto de histórias bonitas. Mesmo
quando essas histórias são sobre a morte. Porque até na morte pode haver beleza.
Ou não? Já vi alguém dar, literalmente, o último suspiro através de uma porta mal fechada. Depois vesti-o com o melhor fato e dei-lhe
um nó na gravata que me apertou o pescoço de tanta angústia. Já assisti a
pessoas jovens definharem em três meses com cancro.
Recebi a notícia da morte
do meu pai e da minha mãe sem que ninguém estivesse à espera. Já vi amigos de
infância partirem antes da maioridade.
Podia continuar a lista como
qualquer outra pessoa que já tenha acumulado alguma idade. Aprendemos cedo que
a morte é tão natural como a própria vida. No entanto, como já tinha dito gosto
de histórias bonitas. A história que vou contar é bonita e simples. É apenas a
história de uma família que tinha como ritual fúnebre ler em voz alta Mark
Twain aos seus familiares, como se a morte fosse um momento de comicidade, uma
despedida alegre, um até já que mais logo nos vemos. E porque não? 25/05/2019
pó de estrelas
Não sou um homem religioso, nem
tenho muita fé. Até há alguns anos atrás era um ateu convicto. Depois comecei a
ler sobre ciência, mais concretamente sobre biologia, astronomia, física, química,
etc., e transformei-me num agnóstico. "Não tem” muita lógica ler sobre ciência
e ficar mais espiritual, mas é um facto. Quando percebi que todos nós somos pó
de estrelas, ou seja, todos elementos químicos mais pesados de que somos feitos
nasceram da explosão de uma estrela. Melhor, somos todos luz. Somos todos
descendentes de uma criatura minúscula chamada Prochlorococcus e que decompõe, através da
energia solar, a água nos seus componentes de oxigénio e hidrogénio e usam a química
produzida para captar dióxido de carbono da atmosfera e transformá-los em açúcares,
proteínas e aminoácidos, isto é, todas as coisas necessárias à vida. Não
posso deixar de ficar estupefacto, maravilhado com todas as formas, cores,
cheiros, sons e texturas de que é composta a natureza. É bem verdade o que dizia
Voltaire: «É-me difícil olhar para o relógio e não imaginar um relojoeiro.»
17/05/2019
fake news
Estudo
científico demonstra que ler livros cura o cancro!
Um
grupo de cientistas chineses da Universidade de Xangai, liderados pelo doutor
Xaumin, estudaram durante cinco anos cerca de 500 pacientes com diversos tipos
de cancro. Após longos anos de recolha de dados, Dr. Xaumin pôde recentemente
afirmar que 100% dos pacientes que se curaram leram livros continuamente. É
claro que alguns cientistas americanos não perderam tempo a dizer que esta notícia não
passava de “Fake News”. (Para quem
não sabe inglês: Fake News é uma doença
que se propaga muito rapidamente e dissemina a estupidez.) O professor Xaumin
já veio em defesa da sua tese: diz ele que é verdade que todos os pacientes
estavam a ser tratados também pela medicina tradicional. No entanto, os dados
que este grupo de cientistas chineses recolheu são consistentes. Isto é, todos
os pacientes, agora curados, tinham lido, logo, os americanos não podem dizer
que uma coisa não está ligada à outra. A não ser que tenham dados que confirmem
o contrário. E que era melhor estarem calados até terem factos concretos.
Adiantou também que os doentes que preferiam ler poesia se curam uma vez e meia
mais rápido do que os outros.
Não seria fantástico?
10/05/2019
o meu escritor preferido
Há muitos anos encontrei, em minha
casa, dentro de um dicionário que pertencia ao meu pai, uma folha de papel. Era um pequeno trecho batido à máquina que transcrevo mais abaixo. Aquele fragmento de prosa era fantástico, tinha qualquer coisa que mexia com as entranhas.
Fiquei cheio de curiosidade para ler mais, ainda pensei que fosse um texto do meu próprio pai. Depois não quis acreditar que pudesse ser dele. Por isso, tentei saber quem era o escritor,
mas não consegui, porque não estava assinado, nem fazia referência a qualquer autor.
Aquilo só podia ser um gesto do meu pai, como se quisesse deixar-me mensagens para o futuro dentro de "garrafas" à deriva no oceano. Era ele
que tinha a mania de esconder recortes de jornal, dedicatórias e poemas dentro dos livros. Mas infelizmente o meu pai
já tinha falecido e fiquei sem saber de quem eram aquelas palavras.
No entanto, ficaram-me marcadas na memória para sempre. Depois esqueci o assunto.
Passados anos, estava eu na livraria quando peguei num livro que ainda não tinha lido. Abri-o, li a primeira frase do início do livro. E... nem queria acreditar no que estava a ler. Era dele, era mesmo dele… o meu escritor preferido!
Passados anos, estava eu na livraria quando peguei num livro que ainda não tinha lido. Abri-o, li a primeira frase do início do livro. E... nem queria acreditar no que estava a ler. Era dele, era mesmo dele… o meu escritor preferido!
«Sou um homem doente… Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite a medicina e os doutores. Além do mais, é intolerável como sou supersticioso; enfim, o suficiente para respeitar a medicina. (Sou bastantemente instruído para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) Sim, é por maldade que eu não me trato. Aposto, meus senhores, que isso é uma coisa que não compreendeis. Mas eu, sim! Evidentemente, não serei capaz de explicar-vos a quem ando eu a tramar seguindo deste modo a minha maldade; sei perfeitamente que não ando a tramar os médicos quando recuso tratar-me; sou a pessoa mais bem colocada para saber que isso só a mim prejudica e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é por maldade. Dói-me o fígado. Tanto melhor, pois que me doa ainda mais!»
in Dostoiévski, Fiódor, Cadernos do Subterrâneo
sou do benfica
Aproximam-se
a eleições europeias. Não sou muito de falar de política nas redes sociais - até
porque posso sempre mudar de opinião e isto aqui fica tudo registado para
sempre - embora seja um assunto que me interessa. Sou um homem de esquerda,
pelos valores que me foram transmitidos, por aquilo que observo e leio. Sempre
me alinhei mais com as propostas de partidos como PS, BE e CDU,
menos com o PSD e raramente com o CDS. Mais à direita ou mais à esquerda dá-me
febre. Em questões de política fico constantemente ambivalente entre se se deve
dar mais prevalência aos interesses do colectivo ou às liberdades individuais. É
como ter um cobertor pequeno: se puxo para cima destapo os pés, se empurro para
baixo fico com frio. De maneira que nestas eleições vou adoptar a postura que
tenho no futebol. Sou do Benfica, mas detesto que o Sporting ou Porto percam lá
fora. Porém, neste jogo a contar para a Taça, mesmo contra o Benfica, sou bem capaz
de me ver a torcer por um clube de terceira divisão. Sempre tive um fraquinho
pelos mais fracos.
09/05/2019
distopia
Na pré-história o homem lutava pela simples sobrevivência. Com o advento da agricultura passou a lutar pela posse da terra. Na revolução industrial quem controlava a força das máquinas conservava o poder. Hoje o poder está nas mãos de quem tem a informação.
Será que estamos a criar uma distopia causada pela inteligência artificial, um clique de cada vez? Não do tipo Orwelliano, do livro «1984», mas outra muito mais subtil e invisível. Na verdade os mesmos algoritmos que as empresas como a Google, Facebook, Amazon, etc., usam para nos fazer clicar em anúncios são também usados para organizar o nosso acesso a informação política e sociais. E isso é assustador. Uma ideia estúpida, muitas vezes, torna-se viral, simplesmente, porque é estúpida. Porém, é exactamente por a partilhamos que ela se espalha. E há sempre alguém que acredita nela.
Será que estamos a criar uma distopia causada pela inteligência artificial, um clique de cada vez? Não do tipo Orwelliano, do livro «1984», mas outra muito mais subtil e invisível. Na verdade os mesmos algoritmos que as empresas como a Google, Facebook, Amazon, etc., usam para nos fazer clicar em anúncios são também usados para organizar o nosso acesso a informação política e sociais. E isso é assustador. Uma ideia estúpida, muitas vezes, torna-se viral, simplesmente, porque é estúpida. Porém, é exactamente por a partilhamos que ela se espalha. E há sempre alguém que acredita nela.
Porque é que ao vermos um vídeo, no Youtube, sobre
Donald Trump ou Bolsonaro rapidamente nos aparecem sugestões de vídeos sobre a
superioridade branca ou os perigos dos migrantes? Os poderosos usam a inteligência artificial para nos controlar? O que podemos fazer para nos defendermos? Tenho pensado cada vez mais
nisto e não tenho respostas para todas as perguntas. No entanto, tenho uma sugestão: leiam os
jornais, as revistas e os livros, eles continuam a ser as fontes de informação
mais credíveis.
08/05/2019
ego
Estou com um dilema com o meu Ego. Ele é como o fogo. Não sei se o tenho que alimentar para não se
apagar ou controlá-lo para não me destruir.
06/05/2019
carta de um índio
Se
há coisa que me dá prazer é escarafunchar no meio de livros antigos. Num deles
encontrei um texto lindo que já não me lembrava de ter lido. Depois pensei: talvez ainda haja muita gente que dele não tem conhecimento. Decidi, por isso, partilhar a carta que o chefe Índio Seatlle, da tribo
Suquamish, do Estado de Washington, enviou em 1855 ao presidente dos Estados Unidos
(Francis Pierce), depois de o Governo ter dado a entender que pretendia
comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio, mas o desabafo tem ainda hoje uma incrível actualidade. Fica aqui para quem quiser ler.
«O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava
comprar a nossa terra, e assegurou-nos também da sua amizade e benevolência.
Isto é gentil da sua parte, até porque sabemos que ele não precisa da nossa
amizade.
Vamos, porém, pensar na sua oferta, pois se não o
fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe
de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza com
que os nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. A
minha palavra é como as estrelas: não empalidecem.
Como podeis comprar ou vender o céu ou o calor da terra?
Tal ideia é-nos estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou da refulgência
da água, como podeis então comprá-los? Cada quinhão desta terra é sagrado para
o meu povo; cada folha radiosa de pinheiro, cada praia arenosa, cada véu de
neblina na floresta escura, cada clareira e insecto a zumbir são sagrados nas
tradições e na consciência do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega
consigo as recordações do pele-vermelha.
O homem branco esquece a sua terra natal, quando,
depois de morrer, vagueia por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca
esquecem esta terra formosa, pois ela é a mãe do pele-vermelha. Somos parte da
terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o
cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os cumes rochosos, os eflúvios da
planície, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem, todos pertencem
à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer
que deseja comprar a nossa terra, ele exige muito de nós. O grande chefe manda
dizer que irá reservar para nós um lugar onde possamos viver confortavelmente.
Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar a vossa
oferta de comprar a nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é
para nós sagrada.
Esta água cristalina que corre nos rios e regatos não é
apenas água, mas também o sangue dos nossos ancestrais. Se vos vendermos a
terra, tereis de vos lembrar que ela é sagrada e tereis de ensinar aos vossos
filhos que é sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos lagos
conta os feitos e as recordações da vida do meu povo. O rumorejar da água é a
voz do pai do meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles apagam a nossa sede. Os
rios transportam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos. Se vos
vendermos a nossa terra, tereis de vos lembrar e ensinar aos vossos filhos que
os rios são irmãos nossos e vossos, e tereis de conceder aos rios o afecto que
daríeis a um irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de
viver. Para ele um quinhão de terra é igual a outro, porque ele é um forasteiro
que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não
é vossa irmã, mas sim vossa inimiga, e depois de a conquistar, partis,
indiferentes, deixando para trás os túmulos dos vossos antepassados. Arrebatais
a terra das mãos dos vossos filhos e não vos importais. Esquecidas ficam as
sepulturas dos vossos antepassados e o direito dos vossos filhos à herança. Vós
tratais a vossa mãe (a terra) e o vosso irmão (o céu) como coisas que podem ser
compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou missangas resplandecentes. A
vossa voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Os nossos costumes diferem dos vossos. A visão
das vossas cidades causa tormento aos olhos do pele-vermelha. Mas talvez tal
aconteça por ser o pele-vermelha um selvagem, que nada compreende.
Não há sequer um lugar calmo nas cidades do homem branco.
Não há um lugar onde possa ouvir-se o desabrochar da folhagem na Primavera ou o
vibrar das asas de um insecto. Mas talvez assim seja por eu ser um selvagem que
nada compreende; o ruído é insuportável para os meus ouvidos. E que vida será a
de um homem que não pode ouvir a voz solitária do mocho ou, à noite, a conversa
dos sapos em volta de um pantanal? Sou um pele-vermelha e nada compreendo. O
índio prefere o suave murmúrio do vento a pairar sobre uma lagoa e o cheiro do
próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou de um pinheiro.
O ar é precioso para o pele-vermelha, porque todas as
criaturas o partilham: os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não compreender o ar que respira.
Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se
vos vendermos a nossa terra, tereis de vos lembrar que o ar é precioso para
nós, que o ar partilha o seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento
que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu
último suspiro. E se vos vendermos a nossa terra, devereis mantê-la reservada,
feita santuário, como um lugar em que o próprio homem branco possa ir saborear
o vento, cingido pela fragrância das flores campestres.
Desse modo, vamos, pois, considerar a vossa oferta para
comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, colocarei uma condição: o homem
branco deverá tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que possa ser de outra forma.
Tenho visto milhares de búfalos apodrecendo na pradaria, abandonados pelo homem
branco, que os abate a tiros disparados do comboio em movimento. Sou um
selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais
importante do que o búfalo que nós, os índios, matamos apenas para nos
alimentarmos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais
acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo
quanto acontece aos animais, acontece ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deveis ensinar aos vossos filhos que o chão que pisamos
são cinzas dos nossos antepassados. Para que tenham respeito pelo país, contai
aos vossos filhos que a riqueza da terra é a vida da nossa família. Ensinai aos
vossos filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é a nossa mãe. Tudo
quanto fere a terra, fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão,
cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o
homem que pertence à terra. Disso temos certeza. Todas as coisas estão
interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre
si. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem
teceu a teia da vida: ele é meramente um fio dessa mesma teia. Tudo o que ele
fizer à teia, a si próprio o fará.
Os nossos filhos viram os seus pais humilhados na
derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da
derrota passam o tempo ociosamente, envenenando o corpo com alimentos
adocicados e bebidas embriagantes. Não tem grande importância onde passaremos
os nossos últimos dias, eles não serão muitos. Mais algumas horas, menos uns
Invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que
têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar sobre os
túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos os sonhos do
homem branco; se soubéssemos quais as esperanças que transmite aos seus filhos,
nas longas noites de Inverno; quais as visões do futuro que oferece às suas
mentes, para que possam formular desejos para o dia de amanhã. Somos, porém,
selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós um enigma, e por serem um
enigma, temos de escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para
garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez possamos viver os nossos
últimos dias conforme os nossos desejos. Depois que o último pele-vermelha
tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar
sobre as pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e
praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de
sua mãe.
Se vos vendermos a nossa terra, amai-a como nós a amamos.
Protegei-a como nós a protegemos. Nunca esqueçais de como era esta terra quando
dela tomastes posse. E com toda a vossa força, o vosso poder e todo o vosso
coração, conservai-a para os vossos filhos, e amai-a como Deus a todos ama. De
uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, e esta terra é por Ele amada.
Nem mesmo o homem branco pode evitar este nosso destino comum.
Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa
como amigo para amigo, pode evitar este destino comum. Poderíamos ser irmãos,
apesar de tudo. Vamos ver. De uma coisa sabemos, e talvez o homem branco venha,
um dia, a descobrir também: o nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgueis,
agora, que o podeis possuir do mesmo modo que desejais possuir a nossa terra.
Mas não podeis. Ele é Deus da humanidade inteira, e a sua piedade é igual para
com o pele-vermelha como para o homem branco. Esta terra é amada por ele, e causar
dano à terra é desprezar o seu criador. Os brancos vão também acabar; talvez
mais cedo do que todas as outras raças. Continuais a poluir a vossa cama e
haveis de morrer uma noite, sufocados pelos vossos próprios desejos.
Porém, ao perecerem, vós outros caminhais para a vossa
destruição rodeados de glória, inspirados pela força de Deus que vos trouxe a
esta terra e que, por algum especial desígnio, vos deu o domínio sobre ela e
sobre o pele-vermelha. Esse desígnio é para nós um mistério, pois não
entendemos por que exterminam os búfalos, domam os cavalos selvagens, enchem os
locais recônditos das florestas com a respiração de tantos homens, e mancham a
paisagem exuberante das colinas com fios falantes. Onde está o matagal?
Destruído. Onde está a água? A desaparecer. Restará dizer adeus às andorinhas e
aos animais da floresta.
Este é o fim da vida e o começo da luta pela
sobrevivência.
05/05/2019
dia da mãe
Sempre pensei que a felicidade fosse leve, tão leve e suave como um beijo de uma mãe. Sempre pensei que a felicidade fosse um direito adquirido, conquistado só porque sim. Em criança fui feliz numa família infeliz. Não tinha que fazer nada para que a felicidade viesse ter comigo. Era feliz porque era criança. Hoje percebo que a felicidade acarreta um peso enorme. A manutenção da felicidade dos outros é uma responsabilidade permanente, constante, por vezes cansativa ao ponto da exaustão, tanta que nos podemos esquecer de nós próprios. São poucos os que conseguem ser fortes o suficiente para nos ensinarem que afinal dá muito mais trabalho ser infeliz do que ser feliz.
04/05/2019
unplug
Já reparam como cada vez mais
estamos viciados em ecrãs. E
quando digo ecrãs não me refiro à televisão. Adam Alter, um autor americano de
um livro chamado Irresistible, dividiu
um dia de 24 horas e estudou a evolução - desde 2007 até 2017 - de como gastamos o
nosso tempo. De uma maneira simples ele diz-nos que a maioria das pessoas dorme
mais ou menos 8 horas, trabalha outras 8 e gastamos outras 4 em actividades
que têm a ver com a nossa sobrevivência, isto é, ir às compras, preparar o
jantar, tomar conta das crianças etc. Como as contas são fáceis de fazer sobram-nos 4 horas para as dedicarmos a nós próprios. Podemos gastá-las a ir ao
teatro, cinema, sair com amigos, namorar, ler um livro, tocar um instrumento,
etc. Pois bem, em 2007 as pessoas gastavam em média 1 hora para estar em frente
de um computador, telemóvel ou ipad. Em 2017 as pessoas gastaram mais de 3 horas
em frente de um ecrã, ou seja, menos de uma hora gastas em
actividades unplug (desconectadas da
Internet). Adam Alter também explica quanto isso pode ser prejudicial para a
nossa saúde mental ou de como somos manipulados, etc., mas isso é outra história.
Aprendi isto a ler um livro, onde
gastei várias horas, mas sempre unplug.
24/04/2019
25 de Abril
A primeira recordação que tenho
do dia 25 de Abril, de 1974, é de ter acordado de madrugada com o telefone a tocar, por
volta das cinco da manhã, tinha eu apenas dez anos de idade. Era o meu tio a
comunicar que estava em movimento um Golpe de Estado em Portugal – ainda não se
chamava revolução - e que, provavelmente, iria viajar nesse mesmo dia para o
Brasil, juntamente com a mulher e o filho. Pela cara do meu pai não pareciam
boas notícias. Eu não fazia a mínima ideia de que o meu apelido estava
associado a um primo capitalista relacionado com o Estado Novo. Facto que
poderia vir a trazer consquências para o meu pai, como se veio a verificar,
tão-somente por ter o mesmo apelido. No entanto, para mim foi uma boa notícia.
Naquele dia não iria à escola, disse-me a minha mãe. Depois lembro-me de
estarmos todos na sala a ouvir a rádio. O ambiente era pesado e eu compreendi que
alguma coisa de grave se passava. Pelas vozes empolgadas que se ouviam na telefonia
e pelas descrições bélicas, imaginei que se tratava de uma guerra. Perguntei
ao meu pai quem é que estava a ganhar, se eram os bons ou se eram os maus. Ele apenas me disse que ainda
era cedo para se saber. Por volta das sete da manhã já havia vizinhos na rua
que conversavam entusiasmados. Alguns estavam apenas vestidos com pijama e
roupão. A Grândola do Zeca Afonso ouvia-se como banda sonora de fundo. Definitivamente
percebi que aquele não era um dia como os outros.
Uma semana mais tarde o ambiente
em casa já estava mais calmo. O meu pai sorria e dizia-me que a ditadura tinha
acabado e a liberdade vinha a caminho. A música que sempre se tinha ouvido, em minha casa, em sussurro tocava aos altos berros. As jarras de flores exibiam cravos vermelhos. Não compreendi nada do que aquilo
significava, nem consegui imaginar tudo o de bom e de mau que veio a seguir. Mas o meu pai estava
feliz, toda a família estava feliz, notava-se sobretudo na face da minha mãe uma expressão imensa de alívio. Perguntei aos meus pais porque estavam tão eufóricos.
Disseram-me: «Estamos felizes porque os teus irmãos mais velhos já não terão
que morrer na guerra do ultramar!»
30/03/2019
mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Faz hoje, exactamente,
um ano que a livraria Pó dos Livros abriu portas pela última vez. Dezenas de
livrarias fecharam na recente década e outras agonizam em
silêncio. Fiquei impedido
de fazer o que mais gostava, isto é, o de poder estar junto dos livros e de
interagir com pessoas que gostam de livros.
Sinto-me como um
ex-sapateiro, um ex-alfaite, um ex-actor, um ex-jornalista, um
ex-qualquer-coisa que já não serve para nada. Alguém que perdeu o chão e parou
no tempo. Culpei o sistema, o governo, a oposição, a concorrência, a
ignorância, e a mim mesmo. Não necessariamente por esta ordem. Agora já não
culpo ninguém. A verdade é que a maioria das pessoas não quer saber das
livrarias para nada, nem dos livros, nem do teatro, nem da dança, nem das
outras artes ou da cultura em
geral. Parece que
não têm tempo.
E assim dou por mim a
sentir saudades do passado. Do tempo em que havia tempo. Sim, sinto saudades de
ser uma criança que brincava na rua e que tinha milhares de amigos; de
construir e imaginar os meus próprios brinquedos; de comer formigas com sabor a
terra no meu quintal; de esperar, esperar e esperar pelo natal para poder ter
um brinquedo a sério. E depois era uma alegria que durava uma eternidade.
Porque me ensinaram a esperar. Sim, sinto saudades de não depender de um
telemóvel, de um computador ou de uma televisão. Sinto falta de decidir pela
própria cabeça, livre de algoritmos que me bombardeiam com centenas de coisas
para comprar e de que, verdadeiramente, não necessito. (Ainda há-de chegar o
dia em que serão eles a decidir em quem votar). Sim, sinto saudades do que já
não existe e das pessoas que se foram. Talvez esteja a ficar velho? É provável
que o meu cérebro esteja cheio de memórias e não tenha espaço para coisas
novas. Ou talvez seja a natureza a preparar-me para a morte?... Não digo isto
com mágoa, eu sei que a vida evolui.
«E se todo o mundo é
composto de mudança troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança.»
08/03/2019
caixa de comentários
Hoje quase toda a gente tem direito a ter opinião. Inclusive eu, e acho óptimo. Basta escrever no facebook ou noutro sítio qualquer. É evidente que uns são mais lidos do que outros. Mas essa divisão faz-se sobretudo pela visibilidade, capacidade, talento, poder ou verborreia que cada um possui. O que me “abespinha” não é ler a opinião dos outros, é a forma como alguns o fazem. Por exemplo, se formos ler as opiniões das caixas de comentários, desde os assuntos mais prosaicos, como: o futebol, o Conan Osíris ou miss Portugal, até aos assuntos, realmente importantes, como a violência doméstica, deparamo-nos logo, em muitos casos, com a vacuidade de ideias e o preconceito. Depois surge a ofensa pessoal gratuita e imediatamente nomes como: idiota, imbecil, débil mental, erro da natureza, etc., e pior, saltam à vista. - «No jardim zoológico todos os animais se portam com dignidade, excepto os macacos. Sente-se que o homem não está longe.» - De seguida vêm a ignorância. É impressionante como a ignorância nos estimula a dar opinião. Há quem diga que não existe nada pior do que a ignorância activa, isto é, aquela que se pratica de livre e espontânea vontade. E por fim chegam os "Doutores", aqueles que sabem tudo sobre tudo, mesmo aquilo que os outros não querem saber. Um mestre Zen dizia, com toda a sabedoria, que não havia nada mais detestável do que a poesia dos poetas, a pintura dos pintores, a filosofia dos filósofos, a religião dos religiosos e a doutrina dos doutores. A lista poderia continuar.
Ao terminar este texto dei por mim a pensar onde poderia encaixar-me. Pensei, pensei e... cheguei a conclusão de que perdi uma boa ocasião para ter estado calado!
Ao terminar este texto dei por mim a pensar onde poderia encaixar-me. Pensei, pensei e... cheguei a conclusão de que perdi uma boa ocasião para ter estado calado!
04/03/2019
pedra de afiar livros
Já disponível para encomenda nas livrarias online
à venda nas livrarias a partir de 26 de Março
28/02/2019
ordem alfabética
Olhei para as estantes da minha
sala e reparei que os livros não estavam devidamente organizados. Decidi pôr mãos
à obra e comecei pela letra A, depois pela B, C, D… e por aí adiante, por ordem
alfabética do último nome do autor, ou pela primeira letra do título sem contar com o artigo. Não foi
uma tarefa difícil para quem passou anos a organizar livrarias. Todavia, eis
que no meu cérebro surge um novo problema. Por que diabo quase tudo está organizado
por ordem alfabética? As livrarias, as bibliotecas, as cadeiras de uma sala de
teatro, a lista de contactos de telefone, o meu nome na repartição das finanças,
etc., etc., etc. A dúvida pareceu-me estúpida, no entanto, decidi pesquisar e a verdade é de que não era assim tão óbvia.
Parece que foi só no século III
a.C, no Egipto, onde reinava na recente biblioteca de Alexandria o caos - uma autêntica torre de Babel - quando se colocou a questão. Ninguém se entendia no meio de
milhares ou mesmo milhões de rolos de papiro que existiam naquela biblioteca. A
desordem era tanta que para encontrar um texto eram necessários anos e anos de
buscas sem garantia de sucesso. Foi então que o faraó Ptolomeu II resolveu
chamar um filósofo grego – tinha que ser grego – chamado Zenódoto. Este
pensador, embora contrariado, porque na altura se dedicava à compilação de
velhos poemas de um tal Homero, resolve aceitar o cargo. Ao chegar à biblioteca,
deparando-se com tamanha balbúrdia, não fez mais do que utilizar o método que ele
próprio já tinha utilizado na organização do glossário das palavras difíceis de
Homero. Fez-se luz para toda a gente!
Agora, sempre que for ao seu telemóvel
procurar o nome de alguém na sua lista de contactos, lembre-se de que o faz tão
rapidamente devido a Zenódoto.
26/02/2019
azar
Uma civilização alienígena nos confins
da nossa galáxia descobre finalmente um planeta que parece ter vida
inteligente. Em grande exaltação e sem demoras enviam um cientista matemático –
por ser essa a linguagem do universo – para analisar o nosso planeta. No
regresso depois de ter estudado a nossa civilização minuciosamente e ao
perguntarem-lhe o que tinha achado, meio desanimado, o matemático diz o seguinte: «Um
louco por cada família, uma família de loucos por cada aldeia, uma aldeia de
loucos por cada vila, uma vila de loucos por cada cidade, uma cidade de loucos
por cada país, um país de loucos por cada continente, um continente de loucos
por cada planeta, um planeta de loucos por cada sistema solar. Enfim, apenas a confirmação da estatística: frequência da
ocorrência de eventos. Por outras palavras... tivemos azar.»
25/02/2019
o espelho
Há
alguns anos alguém depois de ter lido uma história que escrevi enviou-me, anonimamente,
um envelope pelo correio com uma missiva e vinte euros, para que eu pudesse mais
tarde oferecer um livro a uma criança muito pobre descrita nessa
história. Essa criança era apenas uma personagem de uma história inventada por
mim. É claro que senti um misto entre a vaidade de ter conseguido ser credível e
a vergonha, embora involuntariamente, de ter enganado uma pessoa. Nunca tinha
reflectido muito, até aí, sobre como aquilo que escrevia podia mexer com os
sentimentos e emoções de quem me lia. Percebi também que quando se escreve a
nossa identidade é imediatamente perdida, assim que se é lido. O leitor é sempre
o verdadeiro autor da história e lê de acordo com olhos que tem e os óculos que
usa.
Escrever
e ler é mais ou menos como um jogo de espelhos. Por exemplo, quando escrevo julgo que me estou a fazer entender perfeitamente, como se me estivesse a descrever vendo-me ao espelho estritamente como sou. Quando na realidade o que vejo é apenas uma imagem invertida de mim. O mesmo acontece quando lemos os
outros.
Em certas ocasiões, quando leio o que escrevi passados anos, não me revejo e fico incrédulo
com o que acabei de ler. Dá-me logo vontade de me enfiar num buraco para não
sentir constrangimento.
Não
reconhecer o próprio «eu» é estranho. O outro dia ao acordar, quando me preparava para
lavar a cara com água fria, olhando para o espelho não me vi a mim, mas ao meu
pai. Os mesmos cabelos brancos, as mesmas rugas e idêntica fisionomia. Não
damos pelo tempo a passar porque só nos podemos ver em águas paradas em vez de águas
correntes. Este episódio fez-me lembrar uma passagem de um texto que li sobre como, por vezes, não nos reconhecermos pode gerar uma certa confusão.
«Há
muito tempo atrás um homem ao passar por uma feira da cidade decide comprar um
espelho, objecto que para ele era totalmente desconhecido. Ao observar-se no
espelho julga reconhecer o rosto do pai falecido. Leva entusiasmado o espelho
para casa. Depois fecha-o num cofre, num quarto do primeiro andar, como um
tesouro valioso e não diz nada à sua mulher. De tempos a tempos vai “ver o seu
pai”, quando se sente triste e solitário. A mulher vê-o sempre sair daquele
quarto com um ar satisfeito e sorridente. Desconfiada começa a espiá-lo,
verifica que ali há um cofre e que o marido permanece por muito tempo debruçado
sobre ele. Um dia depois de o marido ter saído de casa, decide abrir o cofre e
vê no espelho uma mulher, fica dominada pelos ciúmes e invectiva o seu marido
numa grave discussão doméstica. O homem mantém que é de facto o seu pai que está
escondido no cofre. No meio daquela confusão a mãe da mulher chega para
resolver o conflito, mostram-lhe o objecto do litígio e, ao descer, declara à
sua filha: «Não te preocupes, minha filha. É apenas uma velha.»
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